The Cloverfield Paradox | Esse universo é muito maior do que imaginávamos

A tentativa de expandir o Cloverfieldverso a outros patamares

Domingo de final de futebol americano. Como de praxe, algumas prévias esperadas de filmes muito aguardados. Quando de repente, uma surpresa: a Netflix anuncia o lançamento de um novo filme da franquia Cloverfield logo após a exibição do jogo; The Cloverfield Paradox.

Não é a primeira vez que J. J. Abrams nos surpreende. Um dessas vezes foi com Rua Cloverfield, 10 – uma suposta continuação do longa original, mas que subverteu o gênero de monstro foundfootage, mostrando na verdade um thriller psicológico.

Abrams continua uma produção que não é contínua entre si. Cloverfield Paradox não é uma continuação nem um antecessor do primeiro ou do segundo filme lançado. Isso por si só já é muito legal; a ideia de fazer um universo compartilhado no cinema sem ser uma franquia comum sequencial. Mas Paradox apresenta algumas falhas, não na grande ideia central, mas na execução.

O roteiro nos mostra uma Terra que vive momentos de crise de energia muito graves. Astronautas de diversos países diferentes (daí a oportunidade de usar a diferença étnica) se unem num projeto que pretende usar um acelerador de partículas, o Shephard, para acabar com esse problema e ser a solução das crises – e com isso, também das guerras.

A promessa do elenco era grande. Uma diversidade étnica de peso; Gugu Mbatha Raw, David Oyelowo, Zhang Ziyi, e o principal nome; Daniel Brül (Bastardos Inglórios e Capitão América: Guerra Civil). E já dá pra começar dizendo que uma das principais falhas do filme está aí. Ninguém é cativante a ponto de envolver efetivamente a quem assiste. Pelas atuações, não dá pra se prender no filme. Nem mesmo Brül, que interpreta um dos personagens mais importantes, o Schmidt. Tanto nas atuações como nos backgrounds de cada personagem. Na verdade, não há backgrounds exceto de Hamilton, e em nenhum momento sua história com seus filhos e seu marido conseguem cativar.

Considerando que é um filme “para televisão”, não importa muito que os efeitos especiais sejam os melhores possíveis. Fora das telonas, estamos acostumados a assistir séries de TV, onde os efeitos gráficos são limitados, e agora com o lançamento de filmes diretamente no streaming essa mesma adaptação precisa ser feita. No caso de Paradox, a adaptação é bem feita – não é um filme ruim pra se assistir em casa. Ele, porém, promete nos mostrar algo que sempre quisemos ver no universo Cloverfield de um jeito maior que imaginávamos – a suposta origem de todo esse desastre do Monstro – e de fato o faz, mas há muitas falhas e pontos mal explorados que quando o filme termina fica aquela sensação de que poderia ter sido muito melhor.

Obviamente, a expedição espacial dá errado e uma falha no acelerador Shephard faz com que problemas estranhos comecem a acontecer na nave Cloverfield.A partir daí, um clima nonsense começa a sobrevoar o filme. No começo é um pouco difícil lidar com isso – talvez a não divulgação resultou em não ter expectativa nenhuma ou expectativa demais, porém sem nunca saber o que esperar – mas em um determinado momento os acontecimentos passam a ser aceitáveis e você acaba embarcando no absurdo do problema das multi-dimensões e até mesmo espera algo mais bizarro acontecendo a cada momento.


E aqui está outro problema de Paradox. O filme tem medo de se arriscar e acaba ficando bobo. Parece uma sessão da tarde, em que nunca se passa da mediocridade. Com medo de se arriscar e mergulhar de cabeça na ideia de explorar os problemas que a ciência pode trazer numa situação como essa, no fim das contas tudo acaba sendo uma aventura espacial comum. A ficção científica no cinema hoje pede algo inteligente, e pode ser trabalhoso e precisar de muita cautela, mas é possível. Algo que faltou de sobra no filme.

Sobre o roteiro não há muito o que falar além das considerações em cima. Nada é tão bem desenvolvido, a história é simplista e os personagens também. Sim, nós descobrimos a origem do mal que assola o Cloverfieldverso desde o primeiro filme, em 2008, mas é um episódio da história que poderia nos ser contado de uma forma diferente.

The Cloverfield Paradox tenta ser inteligente, mas acaba ficando na média. Dá pra se divertir em alguns momentos, quando se passa a aceitar o absurdo que ocorre na tela, mas quase não há um ápice de desenvolvimento do roteiro, nada te puxa pra cima em nenhum momento. Se desenvolvido melhor (muito melhor), talvez fosse o melhor filme da franquia.

Ficamos na esperança dos próximos filmes continuarem transitando entre gêneros no cinema, assim como o muito bem feito Rua Cloverfield, 10.

 

Post Author: Rafa Saboia

Criador do Nerd Nas Estrelas, estudante de propaganda, especialista em não dormir cedo, maratonador de podcasts, acumulador de episódios não assistidos e Jedi nas horas vagas.