Star Trek: Discovery | Primeira temporada é cheia de reviravoltas e respeita o que conhecemos do clássico

Desde os anos 60 até hoje, o universo Star Trek já ganhou várias produções no cinema e na televisão. Ao todo, são 13 filmes e 7 seriados de televisão, e o mais recente acaba de ter sua primeira temporada finalizada com maestria e muita dedicação.

Star Trek: Discovery se desprende dos novos filmes e dedica-se a estar presente no universo clássico da franquia. Logo nos primeiros episódios, lembra-se muito do que já se passou, com o Capitão Kirk e Dr. Spock na década de 60, mas não visualmente falando, óbvio. E sim, pela essencia da aventura, questionamentos e representação no roteiro da série.

A primeira metade da história é dedicada a apresentar os personagens e conquistar o público, e apesar de alguns dos episódios não serem tão empolgantes, a série cumpre esse papel. Acompanhamos a história de Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) uma meio humano, meio vulcana que sofre alguns dilemas por conta de sua criação. E o elenco da série e excelente; rostos conhecidos, como a incrível atriz Michelle Yeoh que dá vida a Capitã Philippa Georgiou, Jason Isaacs como o destemido e misterioso Capitão Gabriel Lorca – e também atores que nunca vimos em produções de grande escala como Mary Wiseman, interpretando a engenheira Sylvia Tilly e Shazad Latif como o soldado Ash Tyler, assim como todos os outros membros da nave USS Discovery, que são bem caracterizados.

Os 7 primeiros episódios foram o suficiente para cativar quem assiste. As histórias dos personagens são bem contadas, e não há brecha para o pensamento de que a produção não é boa – os efeitos visuais são impecáveis, com cenários muito bem feitos e nada disso é gratuito, pois o roteiro também é de grande qualidade e abraça a ideia da série. Talvez o diferencial aqui seja a seriedade da história. Estamos acostumados no universo Trek a lidar com muito humor e ironia nas produções, mas em Discovery a história acontece com muita retidão, e muito bem, tanto no âmbito visual como no roteiro.

Diferente do núcleo da Frota Estrelar, toda a parte Klingon da história demora de chamar a atenção. As guerras das raças aqui talvez não seja o principal foco da série, e isso vemos na segunda metade da temporada. Nem mesmo o soldado Tyler que faz parte de um dos vários twists da série envolvendo os Klingon não conquista muito. Fora isso, os conflitos políticos são bem construídos, apesar de como já disse, não é necessariamente o foco.

O mais incrívei em Discovery acontece justamente na segunda parte da temporada. Depois de conhecermos – e muito bem – os personagens, suas histórias, seus conflitos, é hora de sofrer mais uma revira-volta e vivermos em universo paralelo, algo que por si só já é muito bem-intencionado – usar o conceito de dimensões paralelas em uma obra de ficção científica, ainda mais em Star Trek – e nos faz lembrar situações que os Kirk e Spock originais já viveram.

E aí vem o que a primeira temporada consegue fazer com maestria: mostrar as facetas de cada personagem dessa história, cada pensamento e dilema. No final das contas e apesar das guerras, os Klingon não são os verdadeiros inimigos dessa história. O roteiro subverte isso e nos mostra que os próprios humanos são e, na verdade, também mostra que qualquer grupo e/ou raça nesse universo pode se tornar uma ameaça ao bem, se motivados a isso.

No final, percebemos que a história encaminhou-se para um destino de paz, algo clichê mas mostra que os personagens estiveram na busca por evitar e eliminar qualquer tipo de conflito existente. Mas a paz que resulta de obstinações e situações que nem sempre são boas para os dois lados. Esse é um conceito também diferente presente em Discovery, até mesmo no jeito como a Frota Estelar é mostrada – racional e pensativa. Discovery mostra a ideia de que o caminho para o inferno é revestido de boas intenções. Existem muitos caminhos para a destruição, como Michael aprende e vivencia algumas vezes, mas há poucos que levam a um mundo onde os humanos não cedem aos seus piores impulsos, onde a bondade e a paz podem ser o resultado final.

O final da temporada, com o episódio Will You Take My Hand? consegue resumir bem o que a série é e futuramente pode ser. Um conteúdo mais forte, a tentativa de viver conforme os princípios da Frota Estelar, e por fim a Discovery indo ao encontro de um novo capitão. É uma obra feita com dedicação. Até chegar no fim, não há tempo para respirar – as coisas acontecem muito rápido – mas tudo é muito bem feito até chegar onde chega. E claro, com uma pura homenagem ao clássico, com a aparição de nada menos do que a USS Enterprise.

Star Trek: Discovery tem personagens bem construídos – quase como se já o conhecessemos há muito tempo – e uma história bem feita que tem um caminho promissor pela frente. Já no coração dos trekkers, a USS Discovery também está no coração do cânone de Star Trek, e agora resta esperar o que vem pela frente no futuro dessa tripulação.

A primeira temporada da série foi transmitida originalmente pela CBS e também pela Netflix, e todos os episódios podem ser assistidos no streaming.

Post Author: Rafa Saboia

Criador do Nerd Nas Estrelas, estudante de propaganda, especialista em não dormir cedo, maratonador de podcasts, acumulador de episódios não assistidos e Jedi nas horas vagas.